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Notícia de Brumado: por que verba de eventos não pode ir para a saúde?

Publicada em: 24/01/2026 07:53 -

Moradores de Brumado têm questionado por que a prefeitura não pode simplesmente pegar dinheiro destinado a eventos e investir em saúde, infraestrutura ou educação — e vice-versa. A dúvida é comum, principalmente em momentos de crise, quando filas na saúde aumentam ou obras demoram a sair do papel. A resposta está na legislação brasileira, que impõe regras rígidas sobre como o dinheiro público pode ser usado.

Entender essas regras ajuda a população a fiscalizar melhor o poder público e a cobrar soluções reais, sem cair em informações incorretas ou simplificações perigosas. A seguir, explicamos, de forma clara, o que a lei permite e o que a lei proíbe.


Quem define como o dinheiro da prefeitura pode ser gasto?

No Brasil, o uso do dinheiro público é regulado por um conjunto de leis federais, estaduais e municipais. No caso dos municípios como Brumado, as principais são:

  • Constituição Federal

  • Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101/2000)

  • Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)

  • Lei Orçamentária Anual (LOA)

  • Plano Plurianual (PPA)

Essas normas determinam que cada recurso arrecadado ou recebido pela prefeitura deve ter uma destinação específica. Ou seja, o dinheiro não é um “caixa único” onde o prefeito pode tirar de um lado e colocar em outro livremente.


O que é a Lei Orçamentária Anual (LOA)?

A Lei Orçamentária Anual é o documento que autoriza a prefeitura a gastar dinheiro ao longo do ano. Ela é aprovada pela Câmara de Vereadores e detalha:

  • Quanto o município espera arrecadar

  • Em que áreas esse dinheiro será gasto

  • Quais programas e ações receberão recursos

  • Quanto vai para saúde, educação, infraestrutura, cultura, eventos, etc.

Se o orçamento prevê, por exemplo, R$ 2 milhões para eventos e R$ 50 milhões para saúde, a prefeitura só pode gastar nesses limites e nessas finalidades. Mudar isso exige um processo legal específico.


Por que a verba de eventos não pode ser usada livremente na saúde?

Porque, pela lei, cada despesa pública precisa estar prevista no orçamento e classificada por função e programa.

Eventos geralmente entram em categorias como:

  • Cultura

  • Turismo

  • Lazer

  • Promoção econômica

Já a saúde tem orçamento próprio, vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e a regras constitucionais.

Se a prefeitura usar dinheiro de eventos para pagar despesas da saúde sem autorização legal, isso pode ser considerado:

  • Desvio de finalidade

  • Irregularidade administrativa

  • Ato de improbidade administrativa

Essas infrações podem gerar:

  • Multas

  • Rejeição de contas pelo Tribunal de Contas

  • Processos judiciais

  • Inelegibilidade do gestor


A prefeitura nunca pode remanejar dinheiro de uma área para outra?

Pode, mas apenas dentro de regras muito específicas.

O remanejamento de verbas é chamado de:

  • Crédito adicional

  • Transposição

  • Remanejamento

  • Transferência de recursos

Para isso acontecer legalmente, é necessário:

  • Autorização da Câmara de Vereadores

  • Existência de previsão na LDO

  • Indicação da fonte do dinheiro

  • Justificativa formal do interesse público

Mesmo assim, há limites. Recursos vinculados — como os da saúde e da educação — não podem ser usados para outras finalidades.


O que são recursos vinculados?

Recursos vinculados são verbas que a lei obriga a serem gastas em uma área específica.

Os principais exemplos são:

  • Saúde: mínimo de 15% da receita do município

  • Educação: mínimo de 25% da receita do município

  • Fundeb: só pode ser usado na educação básica

  • Verbas do SUS: só podem ser usadas em ações e serviços de saúde

Se a prefeitura usar dinheiro da saúde para pagar um show, por exemplo, isso é ilegal. Da mesma forma, usar dinheiro da educação para tapar buraco em rua também é proibido.


Dinheiro de eventos vem de onde?

A verba usada para eventos pode ter diferentes origens:

  • Recursos próprios do município

  • Emendas parlamentares

  • Convênios com o governo estadual ou federal

  • Patrocínios privados

Quando o dinheiro vem de emenda ou convênio, ele já chega “carimbado” com uma finalidade específica. Se a emenda foi destinada para um festival cultural, ela não pode ser usada para comprar medicamentos ou reformar postos de saúde.

Mesmo quando o dinheiro é do próprio caixa da prefeitura, ele só pode ser gasto conforme o que foi aprovado no orçamento.


Por que a lei impõe essas regras?

As regras existem para evitar:

  • Uso político do dinheiro público

  • Gastos improvisados sem planejamento

  • Favorecimento indevido

  • Rombo nas contas públicas

Sem essas travas legais, um gestor poderia:

  • Cortar verba da educação para fazer festa em ano eleitoral

  • Tirar dinheiro da saúde para obras sem licitação adequada

  • Mudar prioridades sem passar pelo Legislativo

O orçamento é, na prática, um contrato entre o Executivo e a população, aprovado pelos vereadores eleitos.


E se a população quiser que menos dinheiro vá para eventos?

Nesse caso, a solução é política e legal, não administrativa.

A população pode:

  • Cobrar mudanças na Lei Orçamentária do próximo ano

  • Pressionar vereadores a reduzir a verba de eventos

  • Participar de audiências públicas do orçamento

  • Sugerir emendas populares à LDO e à LOA

  • Votar em candidatos que defendam outras prioridades

Ou seja, o caminho é mudar o orçamento futuro, e não desviar dinheiro já autorizado para outra finalidade.


A prefeitura pode cancelar eventos e economizar?

Sim. Isso é legal.

O que a prefeitura pode fazer:

  • Cancelar eventos previstos

  • Não executar parte da verba autorizada

  • Reduzir contratos

  • Contingenciar despesas

O que ela não pode fazer:

  • Pegar a verba cancelada e usar livremente em qualquer área sem autorização legal

Se um evento é cancelado, aquele dinheiro volta para o caixa geral, mas só poderá ser reprogramado com autorização legislativa e respeitando as regras de vinculação.


Educação, saúde e infraestrutura seguem regras diferentes?

Sim.

Cada área tem regras próprias:

  • Educação: mínimo constitucional, Fundeb, proibições de uso fora da área

  • Saúde: mínimo constitucional, regras do SUS, controle rígido

  • Infraestrutura: mais flexível, mas ainda depende do orçamento

  • Cultura e eventos: mais flexível, mas também depende da LOA

Por isso, não é correto dizer que “é só tirar da festa e colocar na saúde”. Na prática, isso pode ser ilegal se não seguir o processo correto.


O que acontece se o prefeito descumprir essas regras?

As consequências podem ser graves.

Entre elas:

  • Rejeição das contas pelo Tribunal de Contas

  • Multas pessoais ao gestor

  • Ação de improbidade administrativa

  • Perda de direitos políticos

  • Impossibilidade de reeleição

  • Processos criminais em casos mais graves

Por isso, mesmo quando a intenção é boa, o gestor não pode agir fora da lei.


Notícia de Brumado: informação correta evita desinformação

A dúvida sobre o uso do dinheiro público é legítima e saudável em uma democracia. Mas é importante entender que a prefeitura não pode simplesmente trocar verba de eventos por verba da saúde ou da educação sem cumprir a lei.

As regras orçamentárias existem para garantir:

  • Planejamento

  • Transparência

  • Controle social

  • Uso responsável do dinheiro público

Se a população de Brumado quer mudanças nas prioridades, o caminho é participar do debate orçamentário, cobrar vereadores e acompanhar a elaboração da LOA, e não exigir medidas que poderiam colocar o gestor em situação ilegal.



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